A Morte do Luto
Era um dia chuvoso. Meu pai me abraça ao dar a notícia. Parada cardíaca.
Havíamos ido até Bauru porque nos ligaram durante uma das minhas sessões de terapia em que, algo que acontece raramente, meu pai estava presente. Fomos direto para lá, já suspeitando do que ocorrera. Foi o dia do falecimento da minha avó.
Tivemos que fazer todos os procedimentos, ligar para a funerária, voltar para Marília, ligar para os parentes que estavam encarregados do túmulo. Passamos no supermercado para comprar algumas coisas para aqueles que permaneceriam por mais tempo no funeral. Escolhemos o caixão, não muito simples, não muito caro.
Foi-se seguindo o dia, ou melhor, já era noite, e chegou o momento. O momento de ver o corpo. Estava ela lá, minha verdadeira mãe emocional, aquela que cuidou de mim, me protegeu - um pouco demais -, me alimentou e me amou desde os meus três anos de idade. Uma figura um pouco mais magra, véu sobre o rosto pálido. Chegaram mais pessoas. Davam-nos as condolências. Conversavam conosco, entre si. Eu sentia sono. Havia sido um longo dia.
Cheguei mais perto do corpo. Fitei-o. Acariciei-o. Me distanciei mais um pouco. Completa revolta encheu meu ser. “Por que eu não sinto nada?”
Era como se fosse um dia corriqueiro. Uma caminhada. Uma leitura, assistir um jogo ou série, algo totalmente normal. Não derramei uma lágrima sequer naquele dia, e até hoje nenhuma por causa da sua morte. Malditos remédios. Maldito transtorno psíquico, que não me permite sentir nada…
Sim, tudo isso influencia muito. Mas não é só isso.
A emoção e o inconsciente estavam quilômetros à frente da minha razão. Acho que eles pensavam algo similar ao que vou descrever abaixo.
O que eu vi não era minha verdadeira avó. Era apenas um avatar. Um conjunto de células formando um corpo não perene, que logo se decomporia. Minha avó não estava naquele corpo, na verdade, nunca foi aquele corpo. O corpo era só uma ferramenta, como uma máquina. Descartável.
Minha verdadeira avó poderia estar assistindo aquele funeral e observando a reação dos parentes. Ou poderia estar em outro plano, descansando ou já pensando em sua próxima reencarnação.
Será que seu nome era realmente Maely? Do que ela preferia ser chamada?
Às vezes, de onde quer que esteja, ela me visita. Me visitou no meu aniversário, um dos sonhos mais bonitos que já tive.
Então, meus amigos, leitores, foi aí que cheguei à conclusão: nada chorei, porque nada perdi.